• Suely Tonarque

2021. O ano se inicia ainda com resquícios do antigo, mas também mesclado de coisas novas. A humanidade toda carrega muitas expectativas sobre a vacina contra a Covid-19 e esperanças de que todos seremos imunizados e poderemos gozar de saúde, alegria, e bem viver.


No ano passado, eu, e talvez muitos dos meus amigos e amigas, fomos contaminados pelo Vírus da Criatividade. Inventamos como ficar em casa, afastar a depressão e muito mais. Eu, em particular, entrei em vários grupos de estudos, leituras, cinema, passei a ler mais, a escrever mais, a ficar mais comigo. Desafiei a mim mesmo, desenvolvendo lives com amigas e profissionais do artesanato, da arte manual. Um pouco também com as pessoas que têm interesse no envelhecimento do ser humano e assim estou vivendo e descobrindo um novo jeito de estar e permanecer no mundo e com o mundo.


No livro “Maquinas Como Eu”, o autor Ian McEwan nos provoca durante toda a leitura com a presença de um robô; em certos episódios chega a nos deixar confusas (os) acerca da discriminação do que é humano e não humano, e até acontecimentos que poderemos perder o controle dessa distinção. Às vezes (inúmeras vezes), pensei no que Ian MacEwan nos mostra nesta leitura, isto é, argumentos da presença de robôs entre nós daqui em diante, como caminho pontilhado de angústias, ainda próprios da natureza humana.

Nesta primeira semana de 2021, li uma entrevista do antropólogo/sociólogo/filósofo Edgar Morin, que com a sua lucidez de 99 anos nos permite partilhar suas reflexões. através do seguinte o trecho :


“Surpreendi-me com a pandemia, mas em minha vi estou habituado a ver chegar o inesperado. A chegada de Hitler foi inesperada, para todos. O pacto germano-soviético foi inesperado e inacreditável. O início da guerra da Argélia foi inesperado. Eu só vivi pelo inesperado e pelo hábito com crises, entre outros inesperados como a Pandemia; é necessário aprender que na história, o inesperado acontece e acontecerá de novo. Precisamos aprender a viver com as incertezas, ter coragem de enfrentar. Ao completar cem anos desejo força, coragem e lucidez”

Neste ano o inesperado, como denomina Morin, que nos fez permanecer confinados, trouxe outros aprendizados. Ouvi de muitas pessoas a queixa de não poderem ir ao cabeleireiro pintar as mechas dos cabelos brancos. Fiquei desesperada ao perder muitos cabelos e o inesperado aconteceu: resolvi deixá-los brancos e assumi as minhas velhices de cabelos brancos.


Resolvi colocar no whats fotos de algumas amigas que realmente ficaram mais harmoniosas de cabelos envelhecidos. Observo a maneira de cada uma lidar com eles, que são os maiores delatores das nossas idades.



Relembrando a música, cantada por Herivelto Martins:os cabelos brancos são o reflexo dos anos que vivemos, representam “nossa viagem por esta vida”. E é preciso respeitá-los. Diz o cantor do fundo de sua alma “Respeitem os meus cabelos brancos…”


Encontro uma citacão do Imperador Romano, Marco Aurélio (121-180) bastante próxima da de Morin no dicionário fonético da Língua Portuguesa “a arte de viver é mais parecida com a luta do que com a dança, na medida que está pronta para enfrentar tanto o inesperado, como o imprevisto”.


Aceitar e deixar brancos os cabelos é um aprendizado novo, um desafio, uma coragem e uma lucidez do seu próprio envelhecimento, como relembra Edgar Morin. O velho já viveu tanto, já conviveu com tantos inesperados, que lhe espera o mais inesperado da vida que é a sua própria morte.


Suely Tonarque Entrevista concedida ao portal do IDEAC EM 15.01.2021. Pode ser acessada pelo site: http://ideac.com.br/mudanca-de-ano-e-os-inesperados-da-vida/?fbclid=IwAR2x_oe3ckK6FV3ZoPGA7Hn-_7QWvq-ZkgD35U26woGQFTMFXKoTByNkY_8

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  • Suely Tonarque

Prometi, para mim mesma, que na cerimônia de Natal vamos todos falar daquilo que aconteceu de bom e nos envolveu em 2020. Penso em fazer isso porque foi um ano tão atípico que precisamos cavoucar muito fundo, filtrar todos os acontecimentos e passá-los por uma peneira mágica para extraí-lo como pedra preciosa que se esconde nas margens profundas de um rio. Na paisagem brasileira nenhum ano registrou, como esse, falência econômica, sanitária, social, cultural e outros desastres que nos afundam a olhos vistos para uma situação calamitosa.


Debruçando-me sobre o livro “Avesso das Coisas” de Carlos Drummond de Andrade, apreendo a seguinte riqueza:


“Assim como os antigos moralistas escreviam máximas, deu-me vontade de escrever o que se poderia chamar de mínimas, ou seja, alguma coisa que, ajustada às limitações do meu engenho, traduzidas como um tipo de experiência vivida, que não chega a alcançar a sabedoria mas que, de qualquer modo, é resultado de viver”.


Não se passa pelo viver, se vive. A experiência é algo que nos toca, ressoa dentro de nós, difícil de comunicar aos outros. Como estamos em um mundo de muitas informações, nos faltam experiências.


O ano de 2020 acaba no calendário que usamos e fica o registro das experiências únicas, guardadas, bordadas em nosso coração e mente. Quantas singularidades e quantas diversidades no tudo junto, misturado com distanciamento de dois metros na padaria, no supermercado, na farmácia, no açougue; nos vigiando (a si e ao outro) com medo da Covid-19.


Lembro que no início de março deste ano, fechei a loja de roupas “Vila dos Louros” que eu e minha irmã Duda empreendíamos. Ela estava em Aiuruoca, em Minas Gerais, e com a pandemia resolveu lá ficar. Encontro-me então, sozinha. Um dia, precisando ir até à farmácia (mês de abril), vou devagar, assustada, ruas vazias. Quando entro na drogaria, uma moça simpática, pergunta o que eu estava fazendo ali sozinha, que isto era proibido para pessoas de riscos. “Onde está seu neto, seu filho, sua cuidadora?”, dizia ela cautelosa, mas aflita.


Ha, ha, ha! Dou risada e confesso que não tenho nenhum desses auxiliares. A moça, que se apresenta como médica, oferece um cartão, com seu celular (descubro que somos vizinhas de rua) e me diz que, caso eu precisasse poderia chamá-la. – “Dou plantão no Hospital Einstein, apenas de segunda feira. Nos demais dias da semana, posso ajudá-la”.


Esta foi uma das muitas gentilezas que recebi neste entrar em contato com meu avesso para compreender o meu direito, como diz Drummond. E nem tudo é solidão. Desenvolvi neste período, a habilidade de usar a ferramenta Zoom (um aplicativo de comunicação) para participar de várias lives com minhas amigas. Antes da pandemia nem sabia da existência dessa e de outras possibilidades tecnológicas.


No começo, claro, havia uma demora, uma dificuldade minha e de todos os participantes: o som mantinha-se desligado, a imagem ficava ausente ou só conseguíamos participar pelo celular, e não pelo computador. Hoje, encerrando 2020, com todo medo e receio, fomos adquirindo prática e estamos evoluindo, ampliando conceitos, habilidades e atitudes relacionadas ao uso do computador.


Enfim, o que de fato aprendemos com muita dor, foi lidar com o novo, vários novos que já moravam dentro da gente e que devagar fomos descobrindo suas existências. Imagino que estavam apenas dormindo ou descansando, que aos poucos foram se desenhando, configurando e se formatando ao nosso novo jeito de viver, de se acomodar e enfrentar os desafios.


Às vezes esquecia das coisas, como por exemplo, qual o dia da semana, a hora, o mês, entre outros, uma tristeza só. Quando você começa a esquecer as coisas – não estou falando de Alzheimer, só da consequência previsível do envelhecimento – há maneiras diferentes de reagir, como escreve Julian Barnes, no livro “O sentido de um fim”. O confinamento de nove meses que estamos vivendo até agora, mostra nosso avesso e nos faz vivenciar essa experiência dolorosa da Covid-19


O Natal está chegando e desejo para todos que me acompanham nesta coluna: saúde, paciência, esperança e o breve aparecimento de uma vacina segura e eficaz. Sonhos e projetos que se concretizem, alegria no nosso dia a dia, acreditar que é possível existir com as demais pessoas do mundo, com muita dignidade e amor.


Suely Tonarque para Grupo de Reflexões do ideac, que faz parte da série Legados da Pandemia. Pode ser acessada pelo site: http://ideac.com.br/despedindo-de-2020-expectativas-para-2021 11.12.2020


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Há seres humanos que parecem carregar toda energia dos seus antepassados, e vão distribuindo-as em seu entorno. Simples, humildes, oferecem alegrias, generosidade, a melodia de suas músicas, o gingado do seu corpo e o encantamento de suas histórias. Tudo isso está amarrado em suas trajetórias de muitos anos, impregnadas de fé e alegria. Exalam perfume, tranquilidade e o desejo de oferecer ao outro o que têm de melhor.


Assim é Anna da Silva Amaral, da cor de um breu reluzente, a protagonista que quero apresentar aqui. Eu a conheci enquanto ouvia a dissertação de mestrado da minha colega Claudia Soares - Velhices e envelhecimento: Potências do cuidado tecido nas dobras e redobras do bordado -PUC/SP.


Mulher forte, Anna nasceu em São José do Alegre, Minas Gerais, em 23 de junho de 1932. Ao longo da vida casou duas vezes e pariu nove filhos, cinco meninas e quatro meninos. Mas já perdeu um deles para a morte. Hoje, aos 88 anos e viúva, acalenta ainda, nove netos e quatro bisnetos e uma tataraneta de coração filha da bisneta da sua irmã.


Anna gosta de cantar. Com 6 anos já soltava a bela voz em todos os festejos de Natal. Quando não chovia na fazenda onde morava na infância, cantava com outras crianças “Santa Maria Madalena faz o milagre da chuva”, e na madrugada seguinte a chuva desatava a cair.


Agora Anna canta músicas de vários autores, mas o que mais lhe traz alegria no coração é cantar as músicas compostas por sua irmã, a Tia Dita, já falecida. Com sua doce voz, transforma a Praça Francisco Lopes em Santo Amaro toda segunda feira. Quando o relógio chega em 21 horas as pessoas se encontram para cantar com ela lá no famoso Samba da Vela, comunidade que participa desde 2006. O grupo de samba fundado na Cidade de São Paulo, em 2000 é um dos movimentos culturais mais importantes do samba aqui na cidade. Mas além de cantar Anna é uma excelente jongueira e participa ativamente da comunidade do Jongo de Embu. O Jongo é uma dança brasileira de origem africana que é praticada ao som de tambores, como o caxambu. Se relaciona à origem de saberes, ritos e crença africanos e mantém um profundo respeito à ancestralidade.


Em 2008, Anna foi convidada para participar de uma das oficinas promovidas pelo grupo Teia de Aranha em Morro da Graça- MG. Aceitou o convite e desde então faz parte desse coletivo de mulheres que se encontram semanalmente para bordar no bairro do Butantã aqui em São Paulo.


Esta oficina aconteceu na semana cultural do Morro da Garça, e quando uma das bordadeiras do grupo, a querida Rioco, perguntou o que ela gostaria de bordar. Tia Anna, como é carinhosamente chamada por todos respondeu: gostaria de bordar um boi bem bonito. Rioco ouviu e logo entregou para Tia Anna um pano com várias cabecinhas de boi desenhadas para ela bordar. Tia Anna adora essa história pois conta que pediu um boi e ganhou uma boiada inteira para bordar. Assim foi que se deu sua iniciação como bordadeira no Teia de Aranha, ela se torna uma aranha bordando uma boiada.


Anna também gosta de conhecer o mundo. No ano de 2003, foi visitar sua filha Ana Fátima, que mora em New York e trabalha no Exército da Salvação; permaneceu junto dela durante 6 meses, aproveitando para conhecer muitos locais e também se dedicou a trabalhar como voluntária no Exército da Salvação.


Em 2013 foi para Portugal visitar a outra filha, Andrea, e aproveitou para passear durante um mês. Planeja que assim que terminar a pandemia, talvez em 2022, pretende voltar à Portugal e conhecer Itália, Alemanha, França, para o que já está economizando.


O grande sonho de Tia Anna é ter casa própria, pois mora no bairro da Liberdade há 47 anos em um prédio com 8 famílias, que têm a posse do local por causa do usocapião. Ano que vem completará 89 anos. Vai ser dia 23 de junho e pretende comemorar, caso termine a pandemia, no Samba da Vela. Os sonhos são muitos, viajar muito, continuar visitando o sertão mineiro que tanto ela adora, participando dos eventos culturais em Morro da Garça e viver muitos anos com muitas histórias para contar.


Texto por Sueli Tonarque

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