• Suely Tonarque

Dona Anna. - Quem é essa mulher que aos 89 anos, canta, dança e quer conhecer o mundo?


Há seres humanos que parecem carregar toda energia dos seus antepassados, e vão distribuindo-as em seu entorno. Simples, humildes, oferecem alegrias, generosidade, a melodia de suas músicas, o gingado do seu corpo e o encantamento de suas histórias. Tudo isso está amarrado em suas trajetórias de muitos anos, impregnadas de fé e alegria. Exalam perfume, tranquilidade e o desejo de oferecer ao outro o que têm de melhor.


Assim é Anna da Silva Amaral, da cor de um breu reluzente, a protagonista que quero apresentar aqui. Eu a conheci enquanto ouvia a dissertação de mestrado da minha colega Claudia Soares - Velhices e envelhecimento: Potências do cuidado tecido nas dobras e redobras do bordado -PUC/SP.


Mulher forte, Anna nasceu em São José do Alegre, Minas Gerais, em 23 de junho de 1932. Ao longo da vida casou duas vezes e pariu nove filhos, cinco meninas e quatro meninos. Mas já perdeu um deles para a morte. Hoje, aos 88 anos e viúva, acalenta ainda, nove netos e quatro bisnetos e uma tataraneta de coração filha da bisneta da sua irmã.


Anna gosta de cantar. Com 6 anos já soltava a bela voz em todos os festejos de Natal. Quando não chovia na fazenda onde morava na infância, cantava com outras crianças “Santa Maria Madalena faz o milagre da chuva”, e na madrugada seguinte a chuva desatava a cair.


Agora Anna canta músicas de vários autores, mas o que mais lhe traz alegria no coração é cantar as músicas compostas por sua irmã, a Tia Dita, já falecida. Com sua doce voz, transforma a Praça Francisco Lopes em Santo Amaro toda segunda feira. Quando o relógio chega em 21 horas as pessoas se encontram para cantar com ela lá no famoso Samba da Vela, comunidade que participa desde 2006. O grupo de samba fundado na Cidade de São Paulo, em 2000 é um dos movimentos culturais mais importantes do samba aqui na cidade. Mas além de cantar Anna é uma excelente jongueira e participa ativamente da comunidade do Jongo de Embu. O Jongo é uma dança brasileira de origem africana que é praticada ao som de tambores, como o caxambu. Se relaciona à origem de saberes, ritos e crença africanos e mantém um profundo respeito à ancestralidade.


Em 2008, Anna foi convidada para participar de uma das oficinas promovidas pelo grupo Teia de Aranha em Morro da Graça- MG. Aceitou o convite e desde então faz parte desse coletivo de mulheres que se encontram semanalmente para bordar no bairro do Butantã aqui em São Paulo.


Esta oficina aconteceu na semana cultural do Morro da Garça, e quando uma das bordadeiras do grupo, a querida Rioco, perguntou o que ela gostaria de bordar. Tia Anna, como é carinhosamente chamada por todos respondeu: gostaria de bordar um boi bem bonito. Rioco ouviu e logo entregou para Tia Anna um pano com várias cabecinhas de boi desenhadas para ela bordar. Tia Anna adora essa história pois conta que pediu um boi e ganhou uma boiada inteira para bordar. Assim foi que se deu sua iniciação como bordadeira no Teia de Aranha, ela se torna uma aranha bordando uma boiada.


Anna também gosta de conhecer o mundo. No ano de 2003, foi visitar sua filha Ana Fátima, que mora em New York e trabalha no Exército da Salvação; permaneceu junto dela durante 6 meses, aproveitando para conhecer muitos locais e também se dedicou a trabalhar como voluntária no Exército da Salvação.


Em 2013 foi para Portugal visitar a outra filha, Andrea, e aproveitou para passear durante um mês. Planeja que assim que terminar a pandemia, talvez em 2022, pretende voltar à Portugal e conhecer Itália, Alemanha, França, para o que já está economizando.


O grande sonho de Tia Anna é ter casa própria, pois mora no bairro da Liberdade há 47 anos em um prédio com 8 famílias, que têm a posse do local por causa do usocapião. Ano que vem completará 89 anos. Vai ser dia 23 de junho e pretende comemorar, caso termine a pandemia, no Samba da Vela. Os sonhos são muitos, viajar muito, continuar visitando o sertão mineiro que tanto ela adora, participando dos eventos culturais em Morro da Garça e viver muitos anos com muitas histórias para contar.


Texto por Sueli Tonarque

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