• Suely Tonarque

"Tenho esperança de que virá um mundo melhor para todos"



Quem é você? Qual a data em que você está escrevendo este registro, e em que lugar do mundo você está? Há quantos dias você está em isolamento social, se é que está, e no que ele consiste?

Meu nome é Suely Tonarque. Tenho 68 anos e trabalho com moda feminina para mulheres maduras, há longos anos. Mas, devo dizer que às vezes, nessa quarentena, por questões de milésimos de segundos, não consegui saber quem era eu!...Estou na minha casa sozinha; moro com minha irmã Duda mas, antes de começar este isolamento social, ela foi para Aiuruoca (MG) e pretende voltar apenas quando todo o risco terminar! Fechei a loja, que vendia as roupas confeccionadas por nós duas, no dia 17 de março. Eu tinha uma ilusão de voltar logo ao trabalho, de que esta pandemia (surto, epidemia global), seria um advento rápido... E não foi!Continuo aqui na minha casa, confinada, mas às vezes saio para ir ao banco, supermercado, açougue e farmácia - com máscara, bandana e óculos, com um gel na bolsa e sem luvas (ainda não consigo usar, porque sinto aflição nas mãos quando as coloco).Fui ficando muito introspectiva, com medo, triste e com um pouco de depressão. Foi necessário processar que estava impotente, frágil, abalada com esses sentimentos todos. Surgiam dois processos: Um era levantar cedo, fazer a higiene, rezar, preparar o café, tomar as vitaminas, ir para a área comum da vila onde moro para tomar sol, refletir sobre o que iria fazer de almoço, arrumar a cozinha, limpar a casa, lavar o banheiro, lavar roupa, passar roupa, molhar as plantas, limpar as maçanetas, entre outros afazeres, relacionados com os cuidados com a minha casa concreta).Mas na minha “casa interna” eu estava sem ação, sem fazer um só movimento para dar conta das tarefas que relato acima, uma tristeza tomava conta do meu interior, e fui tomada por uma paralisia que durou uns dez ou quinze dias; um período pesado, em que eu não fazia nada. No meu âmago, na minha alma, a melancolia me acolhia e ali fiquei... Chorava de saudades de meus pais (já falecidos), chorava de saudades das minhas duas irmãs e meus dois irmãos, chorava porque não podia sair, não podia ir ao meu trabalho. O meu lamento tinha uma proporção maior quando assistia a televisão e via as imagens da pandemia, principalmente da Itália, (meus avós são italianos), e quando recebia WhatsApp com músicas e fotografias lindas… e o meu soluço era infinito... Eu não conseguia parar o choro.O meu tormento foi terminando aos poucos. Ainda não passou de todo. Fui tentando me disciplinar, fui voltando a pensar e me perguntar: qual é o significado desta pandemia para o meu “aprender”? Qual será essa mudança, como vou lidar com as minhas transformações? Será que essas transformações que prevejo vão se concretizar? E as mudanças dos outros?!!! Quais são os valores importantes diante das minhas vulnerabilidades, das minhas fraquezas, das minhas delicadezas?!!! Quais são os valores que preciso agregar ao trabalho, para que a minha confecção possa caminhar… por exemplo rever a forma das costureiras trabalharem e não precisar encerrar as atividades das mesmas? Qual pode ser a minha contribuição para a sociedade? Por onde começar? Deste recolhimento, que se iniciou em 17 de março e ainda não acabou, ficou o aprender a ficar só e entrar em contato com minhas imperfeições, com minhas chatices, com minhas exigências e fraquezas diante do viver e do morrer. A minha paralisação foi parecida com uma morte física, psíquica, emocional e espiritual, o que está exigindo a reconstrução da minha existência para olhar o mundo não só de uma janela, com teorias, mas abrir outras com riscos maiores, a partir da experiência de que o viver é finito.



Como é a casa em que você está vivendo a quarentena? Há mais pessoas nessa casa?

Moro em uma vila onde, além da minha, há mais quatro casas. A minha aparentemente é pequena, mas quando começo a limpar eu a sinto imensa, ela me deixa cansada, e na solidão desta quarentena ficou ainda maior.



Como é a sua rotina em casa, durante esta quarentena?

Agora minha rotina “normalizou”: consigo fazer as atividades gerais, construí uma disciplina para mim, troco de roupa todos os dias, me arrumo, contorno as sobrancelhas, passo batom, perfume, faço a limpeza, faço almoço (há muito tempo que não tinha este fazer, fui atrás do meu antigo caderno de receitas), estudo, leio, falo com amigas, resolvo questões da loja, assisto televisão só de noite, às vezes coloco música para dançar, entro em contato com clientes etc., etc., etc.… O dia agora ficou curto!... E estou refletindo muito sobre novos projetos.



Você conhece pessoalmente alguém que foi contaminado pelo coronavírus? Como essa pessoa está? Qual sua relação com ela?

Não conheço.



Você está tirando alguma coisa de positivo - seja em termos físicos, emocionais, familiares, sociais, profissionais, amorosos etc - desse período da quarentena?

Sim, estou... além do que já mencionei acima… quando tive que lidar com a tecnologia, isto é, entrar em quatro grupos e participar das reuniões com o aplicativo zoom, fiquei com medo de apertar o botão, de não saber, de fazer errado, a insegurança me possuiu e no início ficava paralisada e só observava... agora aos poucos vou tomando posse das minhas participações.... Estou mais inteira e com domínio maior desta nova ferramenta.



O que está sendo mais difícil para você durante esse tempo de isolamento?

No começo tudo era difícil; com o passar do tempo, fui descobrindo aos poucos como resolver as minhas dificuldades (exemplos: ficar em casa, falar com as minhas vizinhas de longe, ficar atenta para lavar as mãos e passar álcool gel, o que às vezes eu esquecia).Tinha também no começo uma fantasia de que o corona vírus me acompanhava pela casa... mas aos pouquinhos fui melhorando das minhas neuroses. O mais difícil, de verdade, foi me deparar comigo, com minhas sombras, minhas chatices, minhas imperfeições.



Você pode revelar quais são os pensamentos que têm surgido com mais frequência em sua mente? Quais são os sentimentos mais dominantes em seu emocional?

Um pedaço dos meus pensamentos é sobre o meu passado, uma espécie de memorial. Lembro da minha mãe dizendo: “Faz uma coisa de cada vez, sem pressa, sem medo de errar, do jeito que você quiser”. “Não tem importância repetir de ano”. “Não case com quem você não gosta” (essa fala também era do meu pai). Lembro das festas de Natal e de Páscoa... Nesta última Páscoa, durante a pandemia, fiquei com o coração apertado, tamanha era a saudade de tudo e de todos. A minha memória foi costurando os retalhos, os remendos que estavam na caixinha dos “esquecidos”. Outro pedaço é pensar no meu futuro: tenho 68 anos, e tenho uma porção de desejos que quero ver realizados! Fico escolhendo quais são os principais e prevendo quais serão possíveis. Desejo de morar numa comunidade, uma Cohousing. Desejo de morar no interior, o que seria voltar às minhas origens. Desejo de morar na praia. Em nenhum momento tive o desejo de parar de trabalhar, o que às vezes acho esquisito, mas é assim. Pensamento de morrer dormindo também tive e aí fiquei imaginando como seria e logo dormi… (não sei se era para ver como é morrer dormindo!!!)Os sentimentos mais presentes são desejos, sonhos, choros, alegria, principalmente quando falo com minha família e com alguns amigos e amigas com quem antes não tinha tempo de conversar. Percebi que neste período tive desejo de conversar também com minhas tias (só tenho duas, as outras todas já morreram) e com meus ex-namorados (esta parte ficou só no desejo... pelo menos por enquanto!!!).



A fé religiosa, ou a espiritualidade, entram em suas reflexões habituais?

Sim, acredito que esta é a minha força, para eu continuar o meu viver. Rezo, quando acordo, o Pai Nosso e a Ave Maria. Rezo de vez em quando o terço (não tem hora e nem dia, vou rezando). Costumava ir à missa todos os domingos. Participava de um grupo de meditação todas as quintas-feiras. Uma vez por ano vou até Aparecida do Norte assistir uma missa. Essas práticas me fazem falta nestes dias de isolamento, mas encontrei uma forma alternativa para a missa de domingo: acompanho, on line, uma transmissão feita ao vivo de Aparecida do Norte.



Por conta da quarentena, você teve que abortar algum projeto? Ou teve que interromper alguma ação?

Sim, não sei se posso chamar de projeto, mas alguns eventos foram desmarcados. O que mais me contrariou foi que no dia 11 de abril de 2020 fazia um ano que eu tinha aberto a loja em um novo endereço; como era um sábado da Semana Santa, agendei com um moço especializado uma degustação de pão, queijo e vinho; encomendei cem ovinhos de chocolate para oferecer para as clientes; programei e ensaiei um desfile; haveria uma roda de conversa com uma artesã que trabalha com produtos da Amazônia e a tarde terminaria com uma cantora de MPB. Tudo isso foi desmarcado. Aliás, todas as ações, até junho, foram desmarcadas, e não há previsão de um novo agendamento.



A quarentena trouxe prejuízos materiais para você?

Sim, fechamos a loja dia 17 de março e fui até a imobiliária para solicitar um desconto no aluguel. Pediram para escrever um e-mail, o que logo fiz… e fiquei aguardando a resposta. Fiz várias ligacões telefônicas, todas sem resposta. Contratei uma advogada e ela conseguiu vinte por cento de desconto. Não aceitei e pedi para suspender o contrato e estou até agora aguardando uma definição da imobiliária...



À parte de eventuais prejuízos materiais, a quarentena lhe trouxe outros tipos de prejuízos?Fora os materiais, acho que ainda não... Não sei responder.



Você está de acordo com o isolamento social durante a pandemia do coronavírus? Pode explicar?

Sim, estou. Acho que é necessário para proteção minha e do outro. É importante tomar as medidas necessárias para que a pandemia termine e para que possamos retomar as atividades, mas penso que essa retomada será de um jeito devagar e com cuidados.



Você acha que, quando a quarentena acabar, algumas coisas em sua vida serão diferentes do que eram antes? Que coisas? E serão diferentes como?

Sim, acho que o mundo será outro; por exemplo, as pessoas tiveram oportunidade de refletir sobre a vida e quais são os valores que têm significado e isso deve ter consequências. Restam-me dez, vinte anos para viver... e como eu gostaria de aproveitar este finalzinho! Preciso saber o que de fato é importante para o meu bem viver!Também acredito que, por tudo que aconteceu e está acontecendo, as nossas atitudes serão voltadas para desenvolver a solidariedade, sair do Si e olhar o Outro com outra lente, ou seja, se humanizar. Acredito que este desmoronamento econômico, político, social, individual trará um novo desafio com novas e ricas experiências.



Finalmente... gostaria de contar o que significou para você escrever este registro como um legado para gerações futuras?

Relatar a vivência de cada um de nós fica como um documento histórico, com histórias de verdade, com relatos únicos de experiências vividas com muita intensidade, neste momento em que do dia para a noite o mundo virou de pernas para o ar. Futurasgerações terão a oportunidade de ler e assim compreender um pouco as nossas experiências dolorosas e sábias. Tenho esperança de que virá um mundo melhor para todos.


Suely Tonarque para Grupo de Reflexões do ideac, que faz parte da série Legados da Pandemia. Pode ser acessada pelo site: http://ideac.com.br/legados-da-pandemia/ - 24/04/2020

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